Por trás do encontro entre MC Hariel e uma orquestra no Red Bull Symphonic existe uma história que começou muito antes de o artista subir ao palco. Para transformar o funk paulista em uma experiência sinfônica, a produção decidiu não utilizar uma formação pronta: foi preciso criar uma orquestra do zero.
Batizada de Orquestra de Fluxo, a formação reuniu 56 músicos escolhidos individualmente para participar do projeto. A seleção levou em conta não apenas a capacidade técnica, mas também a representatividade e, principalmente, a disposição para entender e experimentar a linguagem do funk.
O resultado foi uma formação majoritariamente negra e feminina, reunindo instrumentos sinfônicos, percussão, coro e pickups no mesmo palco. Até o DJ Thi Marquez passou a integrar a orquestra como músico, tocando CDJ e trompete durante o espetáculo.

Por que criar uma orquestra do zero?
A decisão partiu do produtor musical Xuxa Levy, responsável pela regência do espetáculo. Em vez de adaptar o funk a uma orquestra convencional, a equipe buscou músicos que estivessem abertos a compreender o gênero e suas particularidades.
“Eu queria que a galera da periferia curtisse música sinfônica, porque às vezes é difícil o acesso. E queria tirar esse estigma de que música sinfônica é uma coisa careta ou uma coisa de gente privilegiada”, explicou Xuxa.
Para o produtor, a proposta também era criar uma troca verdadeira entre os dois universos. O músico sinfônico precisaria respeitar e compreender o funk, enquanto o artista do funk também entraria em contato com a música sinfônica.
“O músico sinfônico ter profundo respeito pelo funk, assim como o músico de funk também ter respeito pela música sinfônica”, afirmou.
Foram cerca de 1.800 partituras
A construção do espetáculo exigiu um trabalho musical de grandes proporções. Ao todo, oito arranjadores participaram do processo, que resultou em aproximadamente 1.800 partituras.
Para reconstruir alguns dos beats que marcaram a história do funk, a equipe também utilizou ferramentas de separação de áudio. O material foi posteriormente transformado em arranjos capazes de ser executados pela formação sinfônica.

O desafio era fazer com que a adaptação não deixasse a batida do funk “dura” quando transportada para uma partitura. Segundo Xuxa, esse foi um dos pontos observados logo nos primeiros ensaios.
Funk e música sinfônica já dividem os mesmos territórios
Embora possam parecer universos distantes, a produção do projeto encontrou uma conexão importante dentro da própria periferia de São Paulo.
Regiões como Heliópolis e Paraisópolis são conhecidas por bailes históricos, mas também abrigam projetos de formação em música de concerto, como a Orquestra Sinfônica Heliópolis e a Orquestra Filarmônica de Paraisópolis.
Parte dos músicos da Orquestra de Fluxo também iniciou sua formação em projetos sociais de música, mostrando que as trajetórias do funk e da música instrumental já se encontram dentro dos mesmos territórios.
Hariel vê o encontro como uma porta de entrada
Para MC Hariel, a aproximação entre os dois estilos não significa transformar o funk em outra coisa. Pelo contrário: o artista acredita que o próprio funk pode ser uma porta de entrada para que jovens da periferia conheçam a música sinfônica.
“Pra nós, a música clássica é o funk”, afirmou Hariel durante as conversas sobre o projeto.
O artista explicou que muitos jovens tiveram contato com elementos da música clássica justamente por meio dos samples utilizados por DJs e produtores de funk.
“A porta de entrada para nossa juventude conhecer as sinfonias e esse universo foi o funk”, disse.

Na visão de Hariel, aproximar os dois universos também pode ajudar a quebrar a ideia de que a música clássica é distante ou pertence apenas a determinados grupos sociais.
Mais do que um espetáculo
A escolha dos músicos e a construção da Orquestra de Fluxo fizeram com que a representatividade se tornasse parte central do projeto. Para Xuxa Levy, aumentar a presença de mulheres e pessoas negras no mercado musical depende justamente da criação de oportunidades.
“O mercado da música ainda tem uma minoria de mulheres e isso só muda quando existe oportunidade”, afirmou o produtor.
O resultado vai além da adaptação de músicas de funk para instrumentos sinfônicos. A experiência mostra como diferentes trajetórias musicais podem dividir o mesmo palco sem que uma precise apagar a identidade da outra.
No caso do Red Bull Symphonic, o funk não entrou em uma orquestra que já existia. Uma nova formação foi criada para que a orquestra aprendesse a falar a linguagem do funk.