Uma investigação sobre o WiFi Livre SP revelou uma conexão que chama atenção. O Instituto Conhecer Brasil (ICB), responsável pelo contrato milionário do programa, tem Karina Ferreira da Gama como dirigente. Além disso, Karina também atua como produtora do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
O Intercept Brasil encontrou inconsistências nas planilhas de prestação de contas que o instituto entregou à Prefeitura de São Paulo. Entre os problemas, a reportagem identificou um ponto de internet registrado em Itaquera, mas com coordenadas que levavam até a Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro.
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ONG recebeu mais de R$ 100 milhões da Prefeitura de São Paulo
O Instituto Conhecer Brasil recebeu mais de R$ 100 milhões para executar o programa WiFi Livre. Além disso, os aditivos elevaram o valor total do contrato para mais de R$ 157 milhões, segundo documentos analisados pelo Intercept.
O programa busca ampliar o acesso gratuito à internet em regiões periféricas da capital. No entanto, as planilhas entregues pelo instituto apresentaram problemas que dificultam a conferência dos equipamentos.
Para analisar os dados, o Intercept cruzou duas bases. Uma delas reunia 2.673 pontos informados pelo instituto à Prefeitura em janeiro de 2025. A outra, apreendida durante uma investigação, reunia 2.929 registros.
Ao comparar os arquivos, a reportagem encontrou 37 pontos que apareciam fora de São Paulo pelas coordenadas. Entretanto, os endereços correspondentes indicavam locais na capital. A análise também encontrou erros em CEPs de outros municípios.
Um dos pontos de Wi-Fi apareceu em praia do Rio
Um dos casos chamou ainda mais atenção. O instituto registrou um equipamento na Rua Angelo Bini, no Conjunto Residencial José Bonifácio, em Itaquera.
O endereço, o CEP, o bairro e a subprefeitura indicavam corretamente a Zona Leste de São Paulo. Porém, as coordenadas informadas na mesma planilha apontavam para a Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro.
Assim, o registro colocava o suposto ponto de Wi-Fi a mais de 400 quilômetros do endereço informado. Além disso, outros registros apresentaram divergências semelhantes.
Em um dos casos, por exemplo, as coordenadas apontavam para Jundiaí. Já outro registro indicava Sorocaba, embora os endereços apontassem para São Paulo.
Karina Gama também aparece nas investigações de Dark Horse
A ligação com Dark Horse, entretanto, vai além da produção do filme. Karina Gama também entrou no radar da Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal em setembro para investigar suspeitas envolvendo recursos públicos e emendas parlamentares.
Segundo a Agência Brasil, duas entidades registradas em nome de Karina Gama, incluindo o Instituto Conhecer Brasil, receberam R$ 2 milhões em emendas destinadas pelo deputado Mário Frias.
A investigação apura se parte desses recursos acabou direcionada para a produção de Dark Horse. Por isso, o nome de Karina aparece em diferentes frentes relacionadas à apuração.
Além disso, Karina atua na produção do filme que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A obra também entrou no radar de outras investigações.
Investigação também apura dinheiro ligado ao filme
Em outra frente, o STF investiga um possível repasse de R$ 61 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme. O ministro André Mendonça conduz essa investigação separadamente.
Enquanto isso, as autoridades também apuram as movimentações financeiras relacionadas à produção. Dessa forma, o filme passou a aparecer em diferentes investigações que analisam possíveis irregularidades.
O que a Prefeitura diz sobre os pontos de Wi-Fi?
A Prefeitura de São Paulo afirmou ao Intercept que realiza fiscalizações nos pontos do programa por meio de monitoramento técnico e georreferenciado. Segundo a administração municipal, documentos e fotografias comprovam a execução dos serviços.
Além disso, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia informou que identifica eventuais inconsistências cadastrais e comunica os problemas à instituição responsável.
Depois da publicação da reportagem, a Prefeitura também afirmou que as inconsistências apontadas não comprometem a fiscalização do contrato.
O Instituto Conhecer Brasil, por sua vez, enviou uma nota ao Intercept. A entidade explicou que as planilhas analisadas representam diferentes momentos de atualização da base operacional. Portanto, segundo o instituto, a versão mais recente deve servir como referência para acompanhar a execução do projeto.
Assim, o caso reúne duas frentes que envolvem o mesmo nome. De um lado, o Intercept encontrou inconsistências nas planilhas do programa de Wi-Fi da Prefeitura de São Paulo. Do outro, Karina Gama e o Instituto Conhecer Brasil aparecem em investigações relacionadas a recursos públicos e à produção de Dark Horse.
Por enquanto, as investigações continuam. Portanto, eventuais responsabilidades ainda dependem da conclusão das apurações e das decisões das autoridades responsáveis pelos casos.